Passageiros

Um homem sentado no chão do metrô grudado em seu bloquinho de notas tenta escrever uma poesia: ele para, sente, quase sofre, contemplando o espaço com os olhos voltados para dentro de si mesmo. Ele tenta encontrar palavras que possam traduzir o reboliço que os trilhos causam na gente, esse balanço que tira tudo do lugar de forma que a gente precise se remontar com palavras. Tenho vontade de dizer à ele que entendo, mas eu sou apenas uma observadora clandestina de palavras alheias. Morar na clandestinidade nesse caso não é crime, é? Apenas uma pequena ousadia ocular...Inofensiva, quase um espelho desesperado, um encontro comigo mesma na pessoa ao lado. Eu esboço um sorriso no canto da boca e ele quase vê, disfarço. Tenho vontade de soprar no ouvido dele: as palavras estão aí, dentro de todas as pessoas que habitam esse trem...Tire os olhos daí de dentro um pouquinho e veja aquele senhor de cabelos brancos, ele guarda uma biblioteca imensa com livros cheios de palavras de vida, já imaginou, quando a gente chegar lá, se a gente chegar lá? AôÔ maquinista! Será que vai longe esse nosso trem? Sinto que se por um breve instante nos olhássemos todos, verdadeiramente, só por um pequeno instante, conseguiríamos entoar uma mesma palavra em uníssono. Qual seria? Solidão? Passageiros? Companhia? Cumplicidade? Amor? O trem balança demais! É muita palavra saltando pra escolher uma só. Ele guarda o bloquinho e segundos depois torna a pegá-lo, há tantos caminhos para dizer o indizível, é angustiante, eu sei, tenho vontade de dizer à ele que entendo, mas ele não sabe que eu o observo. Mais ainda, ele não sabe que eu me observo ao observá-lo. Ele me olha quando resolvo sentar no chão, será que fui descoberta? O sorriso escapa novamente no canto da boca, é quase um riso de nervoso, sinto-me como uma criança sapeca prestes a ser castigada, mas ele apenas sorri de volta, calmo, é como se me dissesse "isso, descanse um pouco, relaxe, não carregue o peso do mundo sobre os seus ombros, eu estou aqui, nesse mesmo trem". Eu agradeço com palavras silenciosas, mas sei que ele entendeu. Ele guarda o bloquinho, terminou o poema. Estamos todos juntos, todos juntos nesse mesmo trem, as suas palavras são minhas - também. 

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