Poema para mulher (ou para a minha mulher) - uma homenagem a personagem do filme 1/86.
Sinto vontade de chorar, uma dor longínqua me atravessa o peito, vinda das profundezas de minhas águas que há tempos estavam paradas. Um vento passou por aqui, um sopro de ar remexeu as minhas poças d´àgua. Coração cachoeira, em um fluxo contínuo invertido ele jorra sangue quente, engasga a garganta, dá nó no peito e quer sair pelos olhos, esse rio querendo transbordar. Choro a minha solidão, os olhos que não se olham, as mãos que não se tocam, os lábios que não se beijam, a solidão do mundo que mora em mim, o sossego que me desassossega, a meia luz que vasa rasa na escuridão do quarto vazio. Ainda não é o suficiente, é necessário esvaziar-se por completo, limpar a casa, quebrar a xícara e jogar fora os cacos espalhados no chão. Preencho-me então com tintas coloridas, um retrato do que já foi, colares havaianos e geleias de laranja.
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