Tenho um pássaro no coração

Eu vou continuar voando entre os pássaros. A revoada de gaivotas segue livre pelo céu...Porque eu não posso estar entre elas? O que me proíbe o prazer de um salto, de um rasante?
Tem um pássaro dentro de mim, batendo as asas dentro do meu peito. Durante alguns dias ele fica ali, quietinho, amortecido pelos ciclos lógicos das horas estáticas...
E assim, quase num suspiro, quase num sussurro, ele desperta, viçoso e inquieto.
Já não existe mais sentido no badalar dos sinos, o cotidiano não obedece mais o seu fluxo e quase não consigo fincar os pés no chão...Flutuo!
A vista de cima é tão linda, o mundo se torna harmonioso e belo, juntam-se as peças desse imenso quebra-cabeça, como partículas do mesmo átomo, um todo indivisível e bom.
Tudo fica tranquilo outra vez, já é possível encontrar a calma.
Serenado e satisfeito em sua necessidade de voar, o pássaro novamente adormece, e eu retorno ao chão, pois caminhar é um pressuposto inevitável para quem tem pés.
No entanto, ele está ali, mesmo dormente eu o sinto, e o alimento sempre, com carinho, faço do meu peito um ninho quente, para que ele possa viver forte enquanto firme meu corpo for, e para que ele
possa despertar diversas vezes, disposto, renovado, levando-me com ele por esse céu azulado, pois voar é um pressuposto inevitável para quem tem um pássaro no coração.
E assim seguimos, pelas estradas e nuvens, desse pedaço de tempo que chamam vida, num acordo tácito e resignado...Até um dia eu adormecer, e ele despertar, de vez, para voarmos juntos, na eternidade.

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