Crônica de um cotidiano inexistente.
Você lavava o banheiro.
Eu varria, passava pano na casa, você cozinhava, eu lavava a
louça, você lavava o banheiro.
Sabe que agora eu desenvolvi um gosto peculiar pela limpeza
do banheiro? Logo eu, que nunca tinha chegado perto dele.
Pode parecer ridículo, sistemático até, mas era assim que
funcionava: eu varria, passava pano na casa, você cozinhava, eu lavava a louça,
você lavava o banheiro.
Talvez por isso eu nunca tenha percebido a multiplicação da
sujeira de nossos excrementos mútuos...A casa estava sempre perfumada, e você
lavava o banheiro.
Até que um dia você se foi, e o banheiro ficou sujo, e a
sujeira começou a se acumular, até o ponto de eu não conseguir mais ignorá-la.
Logo eu, que tinha me tornado especialista em abstrair esse tipo de sujeira durante
todos esses anos.
Reverti então a minha especialidade, tornei-me uma
"expert" em limpeza de banheiros...Pesquisei diversos produtos,
vários aromas, desenvolvi uma técnica minuciosa para a desinfecção dos cantos
mais imundos. Só encontrei um problema, não consegui deixar o banheiro branco.
Tentei de tudo, esfreguei com todas as minhas forças, até
rasgar a luva, até ferir as minhas mãos. Usei água sanitária, sabão em pó ultra
white, sabão em pedra, antiferrugem, antisentimentalismo, antifúngico,
antinostalgia, antimofo, e não consegui deixar o banheiro branco. Troquei todos
os azulejos, pintei o teto de tinta fresca, e não consegui deixar a porra do
banheiro branco!
Havia sempre um azul, incisivo e desconcertante.
O azul da sua camisa, o azul dos seus olhos castanhos, o azul
do cheiro de mar de quando você voltava da praia...
Desisti.
Declarei-me incapaz de deixar o banheiro branco. Escrevi até
alguns cartazes, em letras azuis garrafais, na cartolina branca, e espalhei
pela casa, para que ficasse bem claro e alarmante o perigo: Essa pessoa que vos
lê não tem a menor capacidade de deixar o banheiro branco! Não ouse sequer
tentar!
Assumindo o fracasso, depois de caixas de cigarro e
garrafas de vinho desperdiçadas em uma noite fria, reuni todas as minhas forças
evasivas e resolvi criar um banheiro colorido. A ideia veio da observação do
arco-íris, dissolvendo-se no azul do céu em uma manhã fresca, depois de tantas
noites frias.
Comprei tapetes variados, pastilhas de vidro, vasos de
flores, e até arrisquei alguns amores.
Pode parecer ridículo, sistemático até, mas é assim que funciona agora: o azul, disfarçado entre as multicores, torna-se menos impactante, a ponto de quase me convencer de que ele não está sempre ali.
Pode parecer ridículo, sistemático até, mas é assim que funciona agora: o azul, disfarçado entre as multicores, torna-se menos impactante, a ponto de quase me convencer de que ele não está sempre ali.
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