Ensaio sobre guerra e paz (ou a culpa é dos cromossomos)
Quem sou eu, nesse mundo de cromossomos? Existem milhares de palavras implícitas, implácidas e incertas que eu não consigo dizer. Existem palavras no ar,
palavras soltas que se agrupadas poderiam quiçá traduzir essa angústia infinita
de se saber humano, o antagonismo existencial de ser parte de um todo infinito
e ser ao mesmo tempo um indivíduo. O clichê imbatível. Ser você, enquanto - você
- é parte de uma sociedade, de uma família,
de um planeta com bilhões de habitantes, do sistema solar, de uma galáxia com
um nome bonito: via láctea. Você é parte da geração X, Y, Z. Você é retrô, retrógrado,
visionário, vanguardista, niilista. É, você não é nada. Você é parte do sistema, você é o sistema,
você é contra o sistema. Você - que
nesse caso é a pessoa que vos fala, é parte do apartamento 902 de um edifício de
10 andares do bairro de Copacabana, Rio de Janeiro, Brasil. E nesse momento há
um helicóptero do Bope sobrevoando esse espaço do qual sou parte, anunciando
que acontece uma guerra logo ali, denotando antes a guerra que existe aqui e dentro de cada um de nós. O barulho da hélice,
satirizando o antagonismo da vida, me lembra do som do mar...O mar imenso e belo,
que também está logo ali, e talvez aqui e também aí. A imensidão do mar...Talvez
no encontro da minha imensidão com a sua imensidão, nesse vértice tênue onde
duas almas se encontram, esteja
secretamente guardada a explicação de tudo isso. O verdadeiro encontro com o
outro é como saborear um doce, você coloca o doce na boca e...Passou. É rápido
demais para entender, ainda não estamos prontos. É tão rápido, e tão bom, e tão
raro porque estamos sempre tentando ser aquilo que já somos, e quando esse
segundo de epifania acaba estamos novamente nós, novamente sós. Nós? Sós? Nesse mar imenso de cromossomos. Nessa guerra insana,
de cromossomos. Cromossomos somos, somos cromossomos. Somos. Apenas. Somos? Quem
é você, nesse mundo de cromossomos?
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