Ode à Um rock por nada, de Fred Maia. Ou, escute o Jazz que vem das notas silvestres das amoras. Ou, trote Quixote.
A música soa em notas dissonantes que se encaixam. Seria isso possível? Ela finalmente decide se entregar à vida que se apresenta em forma de pastéis. A vida te repulsa ou te impulsa? Eu quero o jazz das notas silvestres das amoras. Onde elas estão, meu caro Jack? Escorre-se o óleo da boca loura da moça de batom vermelho. Um beijo ou um queijo, old Jack? Os dois, a esmo. Espalho-me, espelho-me. Give me something more interesting do que os fios dos meus cabelos que entrelaço com os dedos. Prazer sutil, prazer macio. Desliza-me com essas notas errantes, quero ver se você acerta o tom, vai pagar o preço? Somos o avesso do avesso do avesso e nem estamos em Sampa, esse é só o começo. O ar condicionado gela as vértebras, já é inverno no metrô. Um contorcionista brinca de circo com argolas imaginárias, o mundo é um picadeiro para ele, não há o risco de cair, pois ele não tem medo. O homem sentado ao meu lado pendula entre o equilíbrio e o sono, ele quase encosta a cabeça no meu ombro, como que pedindo um afago há muito esperado, o desejo de carícia intrínseco a cada ser humano. O do outro lado se afasta, tentando disfarçar a curiosidade sobre o que escrevo. Eu escrevo sobre você também, querido estranho. Eu escrevo sobre você da mesma forma que você escreve sobre mim, sem perceber. Eu escrevo novamente em um livro pela simples incapacidade de levar comigo um bloco de notas ou um celular que funcione. Talvez seja de propósito, talvez eu goste do imprevisto. Talvez. Escrevo no livro de um poeta desconhecido que escreveu uma dedicatória em 1989, três anos depois de eu nascer. Eu nasci e três anos depois ele dedicou seu livro a uma tal de Adriana. 28 anos depois eu comprei esse mesmo livro em um sebo de uma rua do Catete, que não convém falar o nome, pois nada acrescenta ao texto, a não ser agora, que serve para rimar, era Buarque de Macedo. Em que parte Adriana deixou de fazer parte? O livro fala de um rock por nada, um rock, por nada. Ele entendeu tudo. Eu ainda estou tentando entender. Devo temer o tropeço ao escrever andando sem sequer olhar para o chão? E onde há segurança, querido Jack? E onde há segurança, querida Adriana? - diria ele - Vamos fazer um rock por nada! Eu sei que você me acompanha de alguma parte do mundo, em uma epifania momentânea nós nos encontramos, mas você nem sabe que sou eu. De alguma forma eu te toco, de alguma forma eu toco um rock por nada. Mas eu não sei tocar, você me ensina? Eu sempre quis aprender a tocar guitarra. A melodia está em tudo, não está? Por que temos que aprender as notas? Nós somos as notas, não tenha medo, me toque. Cuidado! Você pode tropeçar em uma motocicleta de um rock star esquecida na calçada. Tem uma banca 24 horas logo ali, para satisfazer os seus desejos incandescentes. A lua, tal qual a dona de um bordel... Pare. Algumas pessoas cantam o bêbado com o chapéu-coco em um apartamento misturado na noite, o meu Brasil que sonha com a volta do irmão do Henfil, eu sonho? As vozes são reais. Elas são dissonantes, mas se encaixam! São rock stars perdidos encontrando-se uns nos outros, é sempre tempo de cantar, eles dizem! Eles entenderam tudo! São rock stars uivando para a lua, cantando a esperança em um misto de amor e paz. A lua brilha tanto, desgraçada! Eu ardo, eu ardo. Eles tentam fazer parte de um livro de 1989, cantando um hino de 1979 em 2017. Eles riem e cantam, atravessando a noite escura. Eles riem e cantam, interrompendo o silêncio. Eles riem e cantam, é tudo tão simples. Eles riem e cantam, eu ainda estou tentando entender. Eles riem e cantam. Eles só riem e cantam...Extraindo um jazz das notas silvestres das amoras, fazendo um rock por nada.
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