Minhas mandíbulas estalam, tenho ossos.
A nossa casa tem borboletas coloridas na parede porque aqui elas conseguem viver e eu agradeço todos os dias por esse recanto de amor no meio desse mundo louco. As pessoas estão enquadradas nas janelas dos empilhados de concreto. Seria o mundo um grande lego? Pergunta Sofia. Mas na janela da frente há uma luz azul, uma luz azul que pisca, brincando de ser estrela. E em uma outra uma bola branca gigante pendurada no teto, brincando de ser lua, e um pai que brinca com seu filho, para que ali, naquele pedaço de concreto nesse pedaço de mundo, haja sorrisos. O céu cobre a cidade vazia, é madrugada e o alarme vermelho do carro da polícia avisa que o perigo cruza a avenida. Mas aqui há um ninho de paz onde as borboletas dormem, há também cristais e um pequeno cacto que armazena água em sua redoma de espinhos. Há ainda uma planta que sempre renasce, sempre, pois ela nos foi dada de presente por uma pessoa amor, e onde há a força do amor, há força de vida. E é por essa mesma força que sei que ficarei inteira de novo, embora agora meus pedaços estejam espalhados em seu labirinto, nesse em que eu me perdi e que por vezes me sufoca o peito. É uma pena que você não se interesse pelos meus pedaços e que não consiga ver que, embora ladrilhados, eles brilham. Talvez nessa madrugada você perceba uma chuva de borboletas coloridas resistindo a noite escura e invadindo o seu quarto, não se assuste, elas estão me buscando de volta, e não passará de um sonho, meus pedaços e cores passando por você. Respiro lentamente enquanto escuto uma canção suave, dessas que acalmam a alma e confortam o coração, as minhas mandíbulas estalam, tenho ossos, o ar das minhas narinas traz as borboletas de volta...Adormeço enquanto elas me reconstroem, pois logo será dia, a cidade acenderá e eu precisarei andar pela avenida, inteira, protegida pela Nossa Senhora de Copacabana.
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