Sobre o inverno que chove em mim.
Ela adorava os dias quentes de verão, as pessoas nas ruas rindo à toa, como que tomadas por um êxtase natural provocado pelo suor escaldante, os risos fáceis de verão, gozar a vida como num sonho quente e bom, sonhos de Shakespeare, sonhos de uma noite de verão. Enchia os olhos com as ruas coloridas de flores na primavera, as cores do mundo misturadas às dos pintores passantes na tela da vida, traduzidas por Leonid Afremov, mesmo em meio as cinzas de Israel. Sentia doída a solidão do outono, as árvores órfãs de suas folhas e flores, como se a natureza dissesse que assim é o ciclo da vida, tudo vem, vai e se renova, e é necessário ficar sozinho, também. Ela entendia e sentia tudo como imprescindível e bom. Mas era nos dias frios e chuvosos do inverno que ela se encontrava em casa no mundo, talvez porque a chuva transformava o barulho das ruas em silêncio melodioso e assim era possível degustar a solidão compartilhada, sem pressa, com um vinho, café ou chocolate, quentes e aromáticos, olhos nos olhos a gosto da ocasião. Talvez porque o calor humano se mostrava, enfim, necessário. Ou simplesmente porque nesses dias frios ela se sentia em Paris, mesmo sem nunca ter ido a Paris, como se a sua alma viajasse e visitasse terrenos poéticos imaginários e escorresse com a chuva pelo rio Sena, até encontrar o oceano e retornar para casa, evaporada e renovada, em canções de inverno "chuviais".

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